Brasilia, precisamos conversar.

Embora única por sua importância histórica e urbana, Brasília é marcada pelas mesmas contradições sociais, culturais e econômicas do país. A urbanização dispersa, combinada com a má gestão territorial, a instabilidade institucional, a política clientelista, a rígida preservação histórica e o desenvolvimento urbano excludente geraram uma cidade fragmentada, segregada e desigual.

Como assim?

Brasília é a área metropolitana mais fragmentada do país

Enquanto o Plano Piloto ia sendo construído e a alta burocracia do Estado se mudando para Brasília, acampamentos e instalações provisórias às margens da cidade cresciam no mesmo ritmo. Muitas vezes, estes eram violentamente removidos e realocados a quilômetros de distância do centro, longe de empregos e serviços. À medida que a população aumentava, novos bairros foram criados para acomodar populações de baixa renda, que não tinham condições de morar no Plano Piloto. O crescimento demográfico levou a um desenvolvimento urbano desordenado com pouco planejamento e integração. Enquanto empregos e serviços não eram oferecidos nos novos bairros, grande parte da população tinha de se deslocar em direção ao centro, criando-se uma forte dependência entre centro e periferia.

Brasília tem um dos 10 piores sistemas de transporte público do mundo

A expansão urbana dispersa exigiu a construção de mais rodovias para conectar as populações a empregos e serviços no Plano Piloto. Políticas centradas no carro e o início do desenvolvimento da indústria automobilística no Brasil conformaram um cenário urbano que privilegiava o automóvel, em detrimento do transporte coletivo. Em 2017, o número de pessoas que usaram ônibus caiu 9%, enquanto a frota de carros emplacados cresceu em 3%. Somado à urbanização dispersa, falta de integração de políticas relacionados ao desenvolvimento urbano e instabilidade institucional, o transporte público nunca foi prioridade, tornando-se caro, ineficiente e relegado às massas. Hoje, quem mora no entorno e trabalha no Plano Piloto paga pelo menos R$ 10 de passagem e gasta aproximadamente uma hora e meia para chegar em casa.

O DF é o segundo estado mais desigual do Brasil, superando o RJ e SP.

O Plano Piloto concentra menos de 10% dos moradores do DF, mas 70% dos empregos, e a sua renda per capita é aproximadamente 10 vezes maior do que na Estrutural, o bairro mais pobre do DF. As diferenças também se dão em termos sociais e infraestruturais - quanto mais precária a situação da cidade, mais negra e parda é a sua população e maior a repressão policial. A fragmentação urbana e a mobilidade deficiente acentuam a desigualdade social, uma vez que grande parte da população tem menos oportunidades de geração de renda, acesso a trabalho e a serviços públicos como saúde, educação, cultura, ou seja, acesso à própria cidadania. Espaços públicos, particularmente, como praças e parques, também existem em menor quantidade e qualidade à medida que as distâncias se tornam maiores em relação ao Plano Piloto.

Em suma, um centro tombado com baixa densidade, mas alta concentração de empregos e serviços, ao qual os trabalhadores de toda a área metropolitana precisam ter acesso, mas com um transporte público caro e ineficiente leva ao uso endêmico de carros. Isso, por sua vez, leva à construção de mais rodovias, expande ainda mais o desenvolvimento urbano, torna o transporte público e a infraestrutura ainda mais caros e cria ainda mais divisões entre as classes.

1. Em Brasília, esses desafios são acentuados pelas contradições do próprio planejamento modernista. Embora baseado originalmente em valores igualitários e democráticos, o urbanismo moderno de Lucio Costa acabou gerando espaços públicos ociosos e uma grande perda de sua função social e política.

2. Os grandes espaços abertos provaram ser custosos de manter e são frequentemente vistos como vazios e abandonados, levando ao medo, rejeição e pavor do espaço público. Isso levou ao deslocamento da vida social das ruas e praças para o interior de casas e outros espaços.

3. A crescente privatização dos espaços, representados na casa, carro particular, shoppings, clubes e mesmo escolas gerou um estilo de vida super-individualizado. A falta de interação entre pessoas de diferentes classes, raças e origens levou à intolerância ao diferente, à falta de empatia com o próximo, e ao reino da vontade individual sobre o direito coletivo.

4. Para completar, aqueles que tentam usar ou se apropriar do espaço público acabam sendo criminalizados por suas ações. Ambulantes, artistas e outras iniciativas são muitas vezes removidos ou proibidos de usar certos espaços, além de encontrarem inúmeras barreiras formais para usar e transformá-los, apesar das muitas leis que garantem o seu direito de fazê-lo.

5. Não poder intervir, transformar e recriar a cidade viola o próprio direito à cidade, incluído na nossa Constituição desde 1988. Em uma cidade tão jovem quanto Brasília, o tombamento prematuro torna muito difícil para a cidade se adaptar e apoiar as práticas emergentes daqueles que a habitam e a definem, especialmente em uma era de rápida transformação como a que estamos vivendo agora. Uma cidade que não leva em conta as mudanças comportamentais, culturais e tecnológicas e ignora seus fortes contrastes socioeconômicos, na verdade, não leva em conta suas pessoas.

6. Apesar das recentes demonstrações por parte da população usando do espaço público para promover encontros nas suas diversas formas, essas iniciativas encontram muitas barreiras impostas pelo acesso desigual a bens e conhecimentos públicos, bem como pelas regulamentações e burocracia existentes e pela pouca autonomia que as instâncias de decisão locais têm. As gerações mais jovens têm pouca voz e, portanto, poder para moldar a cidade segundo seus próprios desejos e necessidades.

O que espaços públicos
tem a ver com isso?

espaços públicos
são acessiveis e plurais

A coexistência de pessoas diferentes que o espaço público proporciona é importante para sociedades heterogêneas, inclusivas, empáticas e tolerantes. Isso sem mencionar os conflitos produtivos entre diferentes interesses, grupos e classes sociais e as consequentes trocas, compromissos e conciliações.

espaços públicos
são acessiveis e plurais

A coexistência de pessoas diferentes que o espaço público proporciona é importante para sociedades heterogêneas, inclusivas, empáticas e tolerantes. Isso sem mencionar os conflitos produtivos entre diferentes interesses, grupos e classes sociais e as consequentes trocas, compromissos e conciliações.

Espaços públicos
facilitam a sociabilidade

Espaços públicos facilitam encontros e, portanto, aprendizagem social. O espaço público é fundamental devido ao seu potencial de unir as pessoas, questionar e representar quem são, e promover a coletividade.

Espaços públicos
facilitam a sociabilidade

Espaços públicos facilitam encontros e, portanto, aprendizagem social. O espaço público é fundamental devido ao seu potencial de unir as pessoas, questionar e representar quem são, e promover a coletividade.

Espaços públicos
são importantes
para o lazer e bem estar

Espaços públicos, principalmente quando dotados de áreas verdes, tendem a aumentar os índices de caminhabilidade e, consequentemente, de atividade física e sensação de bem-estar. Cidadãos que caminham mais (em vez de dirigir) tendem a reconhecer o seu bairro e seus vizinhos, criando laços comunitários e sensação de pertencimento.

Espaços públicos
são importantes
para o lazer e bem estar

Espaços públicos, principalmente quando dotados de áreas verdes, tendem a aumentar os índices de caminhabilidade e, consequentemente, de atividade física e sensação de bem-estar. Cidadãos que caminham mais (em vez de dirigir) tendem a reconhecer o seu bairro e seus vizinhos, criando laços comunitários e sensação de pertencimento.

Espaços públicos
são locais de celebração

Quando as ruas deixam de ser apenas espaços de transição para serem espaços de trocas, o coletivo se manifesta. Acessível e democrático, o espaço público reúne e mistura diferentes culturas, linguagens e trocas. Ruas, calçadas e praças tornam-se palcos para festas, encontros e espectáculos.

Espaços públicos
são locais de celebração

Quando as ruas deixam de ser apenas espaços de transição para serem espaços de trocas, o coletivo se manifesta. Acessível e democrático, o espaço público reúne e mistura diferentes culturas, linguagens e trocas. Ruas, calçadas e praças tornam-se palcos para festas, encontros e espectáculos.

espaços públicos
são fundamentais
para a democracia

O espaço público é pré-requisito para a expressão, representação, preservação e ou avanço da democracia. É no espaço público onde públicos interagem, negociam e contestam, onde demandas são expressas, ideologias representadas e vozes somadas, elementos cruciais para a democracia.

espaços públicos
são fundamentais para a democracia

O espaço público é pré-requisito para a expressão, representação, preservação e ou avanço da democracia. É no espaço público onde públicos interagem, negociam e contestam, onde demandas são expressas e ideologias representadas, elementos cruciais para a democracia

espaços públicos
promovem a cidadania
e participação

As pessoas se tornam cidadãs através de sua participação na concepção, construção e gestão da cidade e, particularmente, através do seu envolvimento na transformação do espaço público. O uso, apropriação e transformação do espaço, portanto, podem se tornar mecanismos para maiores transformações dentro daqueles que estão envolvidos, mudando suas motivações, e a profundidade e o caráter do engajamento cívico na cidade.

espaços públicos
promovem a cidadania e participação

As pessoas se tornam cidadãs através de sua participação na concepção, construção e gestão da cidade e, particularmente, através das negociações do uso do espaço público. A apropriação e transformação do espaço, portanto, pode se tornar um mecanismo para maiores transformações dentro daqueles que estão envolvidos, mudando suas motivações, e a profundidade e o caráter do engajamento dentro da cidade.